Origens

Os povoados da Cova e da Gala pertenceram, administrativamente, à freguesia de Lavos, até ao ano de 1985.
 
Em 1974, os habitante destas povoações apresentaram uma petição ao Ministro da Administração Interna solicitando a criação de uma nova Freguesia, fazendo, assim, eco de velhas aspirações anteriores ao 25 de Abril.
 
A 11 de Julho de 1985, em reunião plenária, a Assembleia da República decretou a criação da actual freguesia de São Pedro.
 
Decorria o ano de 1973, quando Manuel Pereira se deslocou a Lavos, com a sua mulher Luísa dos Santos e alguns familiares, para baptizar seu filho Luís, que nascera havia quatro dias, no lugar de Cova.
 
O dia quinze desse mês prometia ser quente, mas a viagem, a pé, de três quilómetros, do lugar da Cova, primeiro pelas areias das dunas e cabeços, depois pela estrada que ladeava o rio até à Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Lavos, decorreu alegre e folgada. Chegada a hora aprazada, o padre cura, Tomás da Costa, baptizou solenemente o recém nascido Luis, cujos familiares eram de Ílhavo.
 
Este foi o primeiro baptismo cujo assento regista um nascimento no lugar da Cova e, como tal, o reconhecimento da existência do povoado.
 
Anos antes, provavelmente entre 1770 e 1780, um grupo de pescadores, naturais de Ílhavo, constroem palhoças feitas de junco ao abrigo do maior médão a Sul da foz do rio Mondego. Lá no fundo, a Norte, vislumbrava-se a vila de Buarcos e, mais perto e já bela, a recém nascida vila de Figueira da Foz. Era a promessa segura, com o Mondego ao lado e as terras de Lavos estendidas a Sul, do bom escoamento das pescas.
 
Porque se estabeleceram assim, na cava de uma duna, logo de cova foi apelidada.
 
O povoado de Gala, por seu turno, começa a tomar forma quando, vários anos após se term instalado na Cova, alguns pescadores se deslocaram para Nascente e ergueram aí pequenas barracas ribeirinhas para recolha de redes e apetrechos de pesca. Foram-se erguendo, também à beira do rio, grandes armazéns de madeira par salgar, conservar e comercializar a sardinha proveniente das artes da Cova.
 
Na obra As Freguesias de S. Pedro, Lavos, S. Julião e Buarcos em artigos de Buscador, o ilustre galense Cap. João Pereira Mano regista que a Cova e a Gala estão, desde a sua origem, cultural e socialmente ligadas ao mar e o seu povo sempre viveu de forma intensa os dramas e glórias que o mar, na sua imensidão, proporciona. Disso são exemplo a ajuda prestada ao desembarque das tropas de Wellesley no Cabedelo, que contribuiu para pôr cobro às invasões francesas e aos naufrágios de bateiras no rio, de traineiras na safra da sardinha, ou ainda, de barcos de pesca à linha e mais tarde de arrasto, na longínqua pesca do bacalhau. Assim se perde no limbo do tempo a ligação deste povo ao mar.
 
A ele sempre esteve ligado mesmo antes de se fixar nas areias do Mondego. À Cova e à Gala, de antanho, se colou uma cultura marítima forte e persistente que ainda hoje, e apesar da inextinguível mutação dos tempo e das gentes, se pode apreciar e constatar em boa parte da população masculina da Cova-Gala.
Desde as artes usadas no mar da Cova D’Oiro, passando pelas artes utilizadas no rio, pela Pesca do Bacalhau, pelo Cabo Branco, pela Marinha Mercante, pela Pesca da Sardinha, pelo Arrasto, pela Pesca Artesanal, a todas elas aderiu o homem de Cova e da Gala, ao longo do seu percurso. Também se deve considerar o elevado número de naturais da Cova-Gala que, ao longo dos tempos, se foram radicando nos Estados Unidos, como emigrantes e ligados às pescas na sua maior parte.
 
A denominação Cova-Gala atribuída à população destes dois lugares, não surge por acaso. Trata-se de um uso, já com alguns anos, dos seus habitante que, acompanhando o percurso do progresso e as suas incidências no avançar das duas povoações ao encontro uma da outra, unindo o que outrora era separado por uma fina faixa de areia, cabeços e valados. Já pertencem ao passado as rixas entre estes dois povoados, os ditos como os saudosos “Mais vale a Cova que a Gala toda” ao que se retorquia “ouvi dizer que a Gala na sua boca é uma cidade!”
 
É insofismável que, na actualidade, somente se detecte e identifique um só povoado, espraiando-se do rio ao mar, num aglomerado de casas e habitações, e até as pequenas diferenças na entoação do falar, ou no jeito peculiar e gingão do andar das suas gentes, hoje, raramente se vislumbrem.
 
A tipificação da sua povoação tem sofrido, ao longo das últimas décadas, uma alteração no sentido do cosmopolitismo provocada pela abertura social que o progresso permite, não sendo possível caracterizá-la como população tipicamente piscatória com usos e costumes circunscritos e definidos pelo mar e pelas pescas, como acontecia até meados da década de setenta.
São várias as histórias, algumas verdadeiras, outras enobrecidas pela lenda, que contam os feitos heroicos dos homens e das mulheres deste povo que, lutando contra a adversidade e modéstia que a vida do mar sempre proporcionou, ajudaram a escrever um pouco da história de Portugal.
 
O seu habitat tem sofrido profundas alterações motivadas pelo aparecimento das indústrias locais e limítrofes, que vão originando a fixação de grande número de pessoas, construindo aqui as suas habitações. Lado a lado com as casas típicas casas térreas, pertença de pescadores, coexistem blocos habitacionais de três e quatro pisos e modernas moradias e vivendas.
 
Esta zona urbana é marcadamente industrial e portuária, com implantação de estaleiros navais, lota, porto de pesca e uma série de indústrias na Morraceira e Zona Indústrial da Gala sendo, também, de considerar o turismo que as excelentes condições naturais da sua costa e do rio proporcionam.
 
Da cultura popular, por outro lado, o professor João Coelho recolheu, em 1916, a lenda do topónimo Cova, através de uma entrevista com alguns idosos que aqui moravam.
 
Segundo eles, “os pescadores, nossos antepassados, para evitarem rixas com os pescadores de Buarcos, costumavam vir pescar deste lado onde encontravam sempre grande abundância de peixe que depois lhes rendia boas moedas.
Alguns conterrâneos e as famílias de tão arrojados pescadores perguntavam a estes onde onde é que iam arranjar tanto dinheiro, ao que eles respondiam que tinham descoberto uma cova de oiro.
 
O êxito destes estimulou a iniciativa doutros que já não se contentaram em vir buscar o oiro à cova, que é como quem diz peixe, mas ainda fundaram uma coloniazinha que se desenvolveu e… também esgotou o tal oiro deixando-nos apenas a… COVA”.
 
É notório que São Pedro se tem desenvolvido, no decorrer destes últimos anos, encontrando-se actualmente dotada, em toda a sua extensão habitacional, de saneamento de águas residuais e pluviais e de uma moderna ETAR.
 
Existem na Freguesia vários e diversos serviços e estabelecimentos comerciais que dão resposta às necessidades da população residente e, aos que, por imperativos profissionais, diariamente aqui se têm que deslocar.
 
É nesta Freguesia que se encontram instalados o Hospital Distrital da Figueira da Foz, o Porto de Pesca e a Lota.
 
Os estaleiros de construção naval e de obras públicas no Cabedelo e na Morraceira, as unidades de exploração piscícola e a Zona Industrial da Gala a Sul da Freguesia, em progressivo desenvolvimento, fazem com que São Pedro seja uma das mais promissoras freguesias do concelho da Figueira da Foz.   
No âmbito do sector das pescas, a instalação do Porto de Pesca e da Lota na Freguesia permite que toda a frota piscatória de longo curso tenha a sua sede social em São Pedro, que se fixassem aqui várias empresas de processamento de embalagem e congelação e que toda a venda do pescado seja feita nas modernas instalações da Lota.
 
A pesca artesanal representa uma expressiva actividade, de tipo familiar. O arrasto e a pesca de cerco, com as conhecidas traineiras, contribuem para uma boa percentagem de emprego dos pescadores da Cova-Gala.
 
O rio, de forma sazonal, contribui com uma parte dos proveitos das famílias de pescadores, provenientes da pesca da lampreia, do sável e do meixão, nas quais são utilizadas as artes do rio, como sejam as branqueiras, sávaras e peneiro. A apanha de bivalves, tipo amêijoa, berbigão e mexilhão, é outra das actividades que o rio permite.
 
Não será desprezível a quase artesanal arte de extracção de sal na Morraceira, existem três unidades de exploração piscícola em aquacultura e viveiros.